domingo, 1 de agosto de 2010

a nossa língua

Tinha chegado há pouco à estação de metro.
Passavam alguns minutos das seis da manhã, o quiosque do café ainda fechado, e ela ali a fazer horas.
Pelo menos há uma espécie de esplanada, daquelas que a proibição de fumar em recintos fechados fez nascer em todos os recintos abertos.
Puxa uma cadeira e sabe que não tarda a chegar a menina que começa a tirar cafés logo pela manhã, mal o primeiro comboio sai da central.
Já sorriem uma para a outra ao fim destes meses todos em que ela é sempre a primeira a pedir a bica. Um dia chegarão à intimidade dos nomes, por agora apenas o sorriso. Tira o livro de dentro da mala, mas nem tem tempo de o abrir porque de repente levanta os olhos e ele está na sua frente.
Enorme, negro, cabelo entrançado, olhos pesados de álcool e sono, ar de quem há muito não se lava nem se deita. Olha em redor, mas não há ninguem que lhe possa acudir.
Pensa "é agora, é agora!" e já o vê a atacá-la, a roubar-lhe a mala por esticão, mentalmente passa em revista o que tem lá dentro, chaves, telemóvel, agenda - cartões, de débito, de crédito, das muitas lojas donde gasta, para lá do BI e dos cartões de saúde, de segurança social, e de contribuinte, e da Cruz Vermelha, até o de eleitor lá anda pelo meio.
É um perigo, toda a gente lhe diz que é um perigo andar com os cartões todos, mas ela tem sempre medo de precisar de repente de um deles, melhor andar com todos.
Puxa a mala contra si, enquanto o homem lhe pede um cigarro. Vai ter de abrir a mala para lho dar. E tem a certeza de que vai ser então que ele a vai atacar, já sente o bafo dele na sua cara, as mãos dele no seu pescoço.
Volta a olhar em volta e não passa ninguém, a menina do quiosque já devia ter chegado mas atrasou-se, e da policia nem rasto.
Espera que ele não repare como lhe tremem as mãos a abrir a mala, a tirar o maço de tabaco que lhe entrega, inteiro e por abrir.
O rosto dele ilumina-se num enorme sorriso:
- Obrigado - diz, cambaleando e quase caindo para cima dela. - obrigado pela sua amabilidade!
De repende pára (e quase cai de costas), e repete, muito devagarinho, separando bem as sílabas:
- A-ma-bi-li-da-de.
Depois franze a testa, agarra-lhe o braço "é agora, é agora!" e, muito sério, desata num discurso sem quebras:
- è "amabilidade" que se diz? não será antes "amavilidade"? Se a gente diz "amável", a gente devia dizer "amavilidade"!
A não ser... a não ser que a palavra venha de "habilidade", ou seja, a habilidade de ser amável!
A-ma-bi-li-da-de!
E durante muito tempo ele lá ficou naquelas altas filosofias matinais, ela a olhar para ele, agoniada com aquele bafo de álcool e sujidade, até que ele se afasta e ela respira fundo, ainda tem as pernas a tremer - mas de repente ele dá meia volta e regressa, deixa então cair a mão, pesadamente, no ombro dela "é agora, agora é que é!" ela tem metro e meio e ele tem para aí o dobro,e, enquanto ela olha desesperadamente em volta, ele exclama:
- A nossa língua é muito bonita!
O quiosque abria nesse momento.
Ela pagou-lhe um café.
Aquela "nossa", pronunciado com tanta força, tanto álcool de tanta sujidade, tinha-os tornado, de repente, irmãos.

Temos mais em comum com os outros do que julgamos.
Mesmo quando parece mesmo que nos vão roubar a mala.
(Alice Vieira)

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