segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um dia, alguém fará das tripas coração, por ti - Pedro Rodrigues, "Os Filhos do Mondego"

«Um dia vais-te sentar, de olhos postos no vazio, e vais relembrar todos os momentos que te trouxeram até aqui. Vais lembrar o primeiro pôr do sol que viste com atenção, o primeiro amanhecer ao lado de alguém que amavas. Vais-te lembrar das gargalhadas nos dias quentes de Verão, dos filmes das tardes de Domingo, durante os dias chuvosos de Inverno. Vais-te recordar das batalhas travadas. Das guerras que venceste e das guerras em que saíste vencida. Um dia alguém te irá dizer novamente que te ama. Vais ficar de pé atrás. Vais pensar duas vezes. Vais-te lembrar do dia em que tudo aquilo que podia dar certo não deu. Vais-te lembrar do último momento em que o viste. As lágrimas choradas. As súplicas abafadas “fica não vás”, mas ele avançava até desaparecer, e tu, muda, continuavas “fica, não vás”. Ele foi e ficaste tu e o teu coração estilhaçado por todos os lugares em que foram felizes. Mas a vida avança. Tu, como todos nós, avanças com ela. E eventualmente alguém disparará novamente um “amo-te” na tua direcção. Tu tentarás desviar-te porque o teu coração ainda guarda as chagas de feridas anteriores. Desviar-te-ás até ele desistir, assumindo que, de facto, ele desistirá. Se ele te merecer não desistirá. Continuará a dizer “amo-te”. Dirá cem vezes, mil se realmente for necessário. E elaborará “amo tudo em ti, não só o que faz sentido, não só o que me mostras, amo tudo em ti, mesmo aquilo que não compreendo, mesmo aquilo que ainda não descobri, amo tudo em ti.”. Tu sorrirás. Começarás a ceder porque o coração quer. As chagas deixarão de fazer sentido e serão apenas recordações do caminho que te trouxe até aqui. Um dia alguém te irá dizer que tu não és apenas a sortuda que ganhou na lotaria do amor, tu és merecedora desse amor.
Um dia, alguém fará das tripas coração, por ti.
Um dia ela irá sobressair no meio da multidão. Olharás para ela, como se o resto do mundo não existisse. Sentirás um sorvedouro miudinho no peito. Esquecerás os teus amigos e as conversas de café. Sentirás uma vontade sufocante de dizer esse “amo-te” que tens guardado no peito. Terás tremores por todo o corpo. Levantar-te-ás do teu lugar e irás ter com ela. Não lhe dirás “olá, amo-te” e nada daquilo que digas te parecerá correcto. Ela olhar-te-á com algum desdém. Tu não desistirás. Passarás noites a sonhar com ela. Farás trinta por uma linha para conseguires o número de telemóvel dela. Não desistirás. Tens esse “amo-te” guardado há muito tempo. Agora percebes porquê. Depois de tantos namoricos casuais, de tantos amores de bolso: ei-la. Ela que te tirou o fôlego. Ela que parece feita de estrelas. Ela que te faz meter tudo em causa. Ela. Queres soltar esse “amo-te, fica comigo”. Só ela merece esse “amo-te, fica comigo”. Os teus amigos gozar-te-ão. Serás uma espécie rara no meio deles. Mas nada disso te incomodará. Por ela farás das tripas coração.
Um dia vocês relembrarão esse dia em que tudo mudou. Agora são mais que dois desconhecidos: são namorados, amantes, companheiros de armas, parceiros de crimes de cabeceira. Hoje são vocês os dois contra o mundo. E o mundo ajoelhou-se e rendeu-se perante vós.


PedRodrigues»

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O que vou sabendo sobre as mulheres...


São as mais fantásticas criaturas do universo e nós temos a sorte de partilhar o mesmo espaço que elas. No entanto…
São umas chatas do pior e não nos deixam ver o futebol em paz. São bipolares como o caraças e nunca estão satisfeitas com nada. São mestres do disfarce: têm sempre uma máscara para quem não gostam. Têm opinião sobre tudo, mesmo quando não entendem nada do assunto. Conseguem engordar-nos de mimos ao jantar e matar-nos de problemas ao deitar – ou vice-versa. São estranhas, problemáticas, caóticas. Metem o dedo na ferida como ninguém, e se possível vão até ao osso. Têm prazer em ver-nos sofrer quando estamos doentes, ou quando teimam em nos espremer as borbulhas e os pontos negros

-Tem calma, está quase

(De sorriso sádico na cara)

- Não sejas maricas

Enquanto nós, por outro lado, nos vamos contorcendo no meio de toda aquela carnificina. Para elas somos uns piegas, uns meninos da mamã, uns mariquinhas pé de salsa. Somos um compêndio de defeitos e coisas más. Nunca estamos bem, mesmo quando estamos bem. Nunca estamos no sítio certo, mesmo quando estamos no sítio certo. Não as compreendemos, nem temos um pingo de compaixão por elas. Não lhes distinguimos o

-Não…

Quando o

-Não…

Quer dizer

-Sim!

Trocam-nos as voltas com uma facilidade sobrenatural. Acabam onde começam e começam onde acabam. Amam-nos quando somos bons e não deixam de nos amar quando somos maus. Choram de alegria e sorriem de tristeza. São estranhas. Tanto nos esmurram o peito, como se aninham no nosso ombro. Olham-nos com vontades homicidas quando nos enganamos em coisas triviais. Mutilam-nos mentalmente quando nos esquecemos de coisas banais. Para nossa sorte gostam de artigos defeituosos. Queixam-se que se danam. Berram, insultam, esbofeteiam, esperneiam. Caminham sempre no limbo entre a bonança e a tempestade. São perfeitas nos defeitos e nós pecamos por não lhes dizer que o são. Trabalham numa frequência diferente da nossa, mas procuram sempre a sintonia. Esbofeteiam, esperneiam, berram e insultam. Felizmente para nós acreditam em histórias de princesas. Infelizmente para elas, nem todos os sapos escondem um príncipe. Inventaram aquele momento em que os olhares se misturam e os lábios tremelicam, aquele momento em que no meio de beijos e abraços, faça chuva ou faça sol, solta-se um

-Amo-te

Abafado entre lágrimas e sorrisos e um silêncio apavorante.

(Na expectativa de um

-Eu também te amo)

Inventaram os amores de cinema, de telenovela e da vida real. Inventaram o amor, ou o amor foi inventado a partir delas. Felizmente para nós, gostam de artigos defeituosos. Talvez por isso se diga que todos os cães têm sorte.

PedRodrigues

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Amo-te


Amo-te.
Não te amo de uma forma qualquer, ao tropeção, sem medida, ou ao acaso. Não te amo cada dia mais porque as coisas não funcionam assim. O amor não evolui de amor. Será sempre amor, ou então outra coisa qualquer. Vou-te amando como se ama na vida real: com todos os teus defeitos e os meus à mistura, com todas as conversas em cadeia: as nossas, as dos nossos amigos, as dos amigos dos nossos amigos, as dos amigos dos amigos dos nossos amigos e assim sucessivamente, até ao extremo em que eventualmente nos deixaremos de amar. Vou-te amando em cada palavra dessa cadeia e em cada palavra que te escrevo. Se disser o contrário estarei a mentir, visto que quer queira quer não, sempre que escrevo penso em ti, e cada vez que penso em ti não me consigo excluir. Sinto-me misturado em ti e sinto-te misturada em mim. Não te sei explicar como, nem porquê, mas sinto-nos presos numa camisa-de-forças. E é esta a forma ideal de explicar como nos amamos: amamo-nos numa camisa-de-forças: quanto mais esperneamos, mais nos enrolamos um no outro. Amo-te em todos os detalhes que te fazem mulher: o jeito rebelde do teu cabelo, o comprimento do teu sorriso, todos os teus sinais e marcas, o teu aroma a kiwi e coco. Amo quando me tratas bem e não deixo de te amar quando me tratas mal. Amo-te da forma mais difícil de amar: com o coração e as tripas de fora. Não te amo de uma forma infantil, juvenil, ou pré-adulta. Não sou dado a romances de telenovela das seis da tarde, nem aos grandes amores do cinema. O amor não é feito de infinitas utopias. É visceral e acutilante. Se for suficientemente forte, reformulo: se for verdadeiramente real, dará dores de barriga, náuseas, apertos no peito e tremores nas mãos. O amor, o verdadeiro amor, é uma faca de dois gumes. É uma pistola carregada com todas as dores do mundo. Mas só o amor, aquele que é digno das nossas cólicas, vale a pena. Se for para amar, que se ame com um peito de ferro: sem medo. Eu amo-te assim. Sabendo dessa forma que tu também me amas a mim.
Como te disse, hoje não te amo mais que ontem, ou que vou amar amanhã. Não sei quanto tempo ficaremos juntos, mas espero envelhecer ao teu lado. Não te vou jurar amor eterno. Sabes bem que não acredito na eternidade. Juro-te apenas amor. Juro amar-te na mesma quantidade todos os dias. Juro ser a metade que completa o teu sorriso em quarto crescente na minha almofada. Juro-te beijos, carícias, textos… Juro amar-te como se ama na vida real: com tudo o que somos à mistura, presos numa camisa-de-forças.

Amor
Hoje,
Até um dia
Amor

PedRodrigues

sábado, 16 de junho de 2012

UMA VIDA A TEU LADO



"Mais de cinquenta anos juntos e sinto-me como um adolescente, como quando te vi pela primeira vez. Mais de cinquenta anos de mãos dadas... o que nós já passamos. Os filhos partiram, os amigos partiram, a família partiu... mas nós ainda cá continuamos. E sabes uma coisa? Não trocava esta vida a teu lado por nada deste mundo. Dizem que hoje falta tudo, mas a nós nunca nada nos faltou. Deus foi generoso connosco, pois saúde é algo que sempre tivemos, força para trabalhar sempre existiu, nunca nos faltou pão na mesa e os filhos, ai os nossos filhos, apesar de terem abandonado a aldeia são gente que nos orgulham, pois os valores que levaram são a sua maior riqueza. Amo-te. E se é verdade que um dia teremos também nós que partir, é mais verdade ainda que vou ter saudades desta vida a teu lado. Mas pode ser que Deus nos separe nesta vida mas nos volte a juntar na outra. Isso sim, seria o paraíso. Amo-te. Amo-te tanto e com tanta serenidade. Acho que te disse poucas vezes o quanto te amava, mas foram poucos os momentos em que não estivemos juntos, de manha à noite, em todas as situações e momentos. Haverá lá forma mais bela de amar? Vou ter saudades tuas, muitas. Mas nesta nossa maravilhosa aldeia o nosso amor será eterno e entoará eternamente por estas ruas."


Foto: Rui Pires
Texto: Paulo Costa

SILÊNCIO



Por vezes sinto apenas vontade de parar, escutar o vento, ouvir o vazio e chorar silêncio com pena deste país.
Por vezes sinto vontade de fugir do barulho que essa dita crise arrasta, raio de crise, que nunca vi, nunca senti mas que agora teima em nos assolar, aqui, cá na aldeia, onde nunca a chamamos ou provocamos... 
Por vezes fico em silêncio e perco-me nos meus pensamentos... e sinto cada vez mais que crise é de valores, pois a vida continua como dantes, ou será que agora crise virou doença? Ou pior, mesmo que tenha virado doença será que não tem cura? Em crise estarão os que estão doentes de verdade e na realidade nada podem fazer.
Bem, vou mas é trabalhar que aqui essa maldita crise não chega!

Boa noite a todos.

Foto: Rui Pires
Texto: Paulo Costa

CUMPLICIDADE



"Foi longa a nossa vida, mas muito próxima, desde cedo, lá atrás na escola primária, que os teus olhos tocaram os meus. Mesmo sem nunca te dizer nada já te percebia em cada olhar. Quando chegavas triste, logo pela manha, já sabia que tinhas dormido mal. Quando sorrias alegremente sentia que tinhas sonhado muito. Quando te pedi em casamento quase me cegaste com o brilho do teu olhar. Quando nasceu o nosso primeiro filho choraste de tanto sorrir. Incrível como quando eu nada digo tu sabes que digo tudo. Incrível como quando te abraço antes de dormir tu percebes os diferentes abraços. Incrível como sempre nos entendemos, com ou sem dinheiro, com muito ou pouco trabalho, com os bons e menos bons momentos. Amo-te. Tanto que não quero partir. Amo-te. Tanto que sinto que o céu jamais me dará metade de ti. Amo-te. Não digas nada. Olha-me apenas, bem nos olhos, olha-me e diz-me em silêncio tudo o que eu quero ouvir."


Foto: Rui Pires
Texto: Paulo Costa

CAMINHADA DA VIDA


"Vem amor, dá a mão à avó, vem! 
Vem amor, não tenhas medo de caminhar, pois a vida só não te oferecerá o que tu não procurares, e para procurar é necessário caminhar... 
Vem amor, não tenhas medo!
Enche o peito de ar, sente a energia da avó e apreende o conhecimento desta velha mulher, mas, por favor, vem. 
Não tenhas medo do futuro nem das curvas que te aparecem após as retas, não tenhas medo de caminhar, vem... não tenhas medo de cair, levanta-te com coragem, aprende com as quedas, volta a cair e aprende ainda mais, levanta-te e volta a levantar-te, segura-te e caminha, sem medo!
Vem amor, a avó dar-te-à a mão enquanto as forças resistirem, mas quando não sentires a minha força não chores, enche o peito de ar, levanta o queixo, olha firme e... segue em frente.
Vai, procura o teu destino e encontra o teu porto de abrigo. Vai amor, e preenche a caminhada da tua vida com passos firmes.".


Foto: Rui Pires
Texto: Paulo Costa